Durante muito tempo, o humor no ambiente de trabalho foi tratado como um traço de personalidade: algumas pessoas seriam naturalmente engraçadas e outras não.
Uma pesquisa publicada em 2026 propõe uma mudança importante para as empresas. Em vez de perguntar apenas se uma pessoa tem senso de humor, podemos investigar se ela sabe utilizar o humor com competência.
Pesquisadores da Deakin University, na Austrália, desenvolveram a Humor Competence Scale, um instrumento composto por 32 itens. A escala foi validada com 623 líderes de diferentes países e apresenta quatro dimensões principais:
Fluência
É a capacidade de reconhecer e produzir possibilidades de humor com naturalidade, sem depender de um roteiro rígido.
Consciência
É perceber o ambiente, o público, a intenção, as relações de poder e o possível impacto da mensagem antes de usar o humor.
Compostura
É manter a autorregulação diante das reações das pessoas, da ambiguidade e dos riscos presentes em qualquer tentativa de humor.
Discrição
É reconhecer quando o humor é adequado, como deve ser utilizado e, principalmente, quando é melhor não usá-lo.
Humor, respeito e responsabilidade
O ponto mais relevante é que a escala não procura identificar quem conta mais piadas. Ela ajuda a compreender quem consegue criar leveza sem perder respeito, propósito e responsabilidade.
No estudo, a competência em humor apresentou relações com a inteligência emocional e acrescentou capacidade de prever características da liderança transformacional além das medidas tradicionais de estilos de humor.
Isso não significa que fazer mais piadas transforme automaticamente alguém em um líder melhor. A pesquisa aponta para algo mais sofisticado: a qualidade do humor depende da capacidade de perceber o contexto, regular o próprio comportamento e considerar o impacto causado nas outras pessoas.
O que muda para as empresas?
O humor deixa de ser apenas uma forma de entretenimento e passa a ser compreendido como uma competência relacional.
O objetivo não é transformar líderes em comediantes. É desenvolver a capacidade de aliviar tensões, favorecer proximidade e abrir espaço para conversas difíceis sem banalizar aquilo que precisa ser levado a sério.
O humor saudável depende de segurança psicológica, leitura do ambiente e respeito às diferenças. Quando utilizado sem consciência sobre poder, pertencimento e vulnerabilidade, pode excluir, constranger ou silenciar.
Por isso, uma liderança competente em humor precisa estar preparada para perceber a reação do outro, interromper uma tentativa inadequada e reparar seu impacto quando necessário.
Programas de Gestão do Humor
Programas de Gestão do Humor podem desenvolver habilidades como observação, escuta, timing, improvisação, autorregulação e escolha. Assim, o humor deixa de ser uma ação pontual e passa a integrar o repertório de comunicação e liderança.
Quatro perguntas antes de utilizar o humor
Antes de utilizar o humor, vale fazer quatro perguntas:
- Este humor inclui ou transforma alguém em alvo?
- A relação permite essa liberdade ou existe uma assimetria de poder?
- A leveza ajuda a situação ou evita uma conversa necessária?
- Estou preparado para ouvir a reação e reparar o impacto?
Como utilizar o humor para criar presença, confiança e abertura
A pergunta mais produtiva para um líder não é:
“Como posso fazer as pessoas rirem?”
Mas:
“Como posso utilizar o humor para criar presença, confiança e abertura sem ultrapassar os limites do outro?”
A competência em humor nas organizações
A contribuição dessa nova escala vai além da mensuração. Ela oferece uma linguagem para conversar sobre o humor como uma competência ética, emocional e relacional.
Nas organizações, isso abre caminho para avaliar práticas, desenvolver líderes e construir culturas nas quais leveza não signifique superficialidade.
O humor pode favorecer criatividade, aprendizagem e proximidade. Mas sua verdadeira potência nasce da qualidade da presença de quem o utiliza.
Marcelo Luján | Clown, risoterapeuta e facilitador de criatividade
