O Just in Time e a lógica da produtividade
Quando eu tinha 14 anos, fiz parte da primeira turma da ETFG, Escola Técnica de Formação Gerencial do SEBRAE. Um dia o professor explicou o que era o Just in Time — uma metodologia de produção que a Fiat tinha adotado para eliminar o estoque próprio: os fornecedores passavam a entregar os insumos diretamente na linha de montagem, no momento exato em que iam ser usados. Nem antes. Nem depois. Preciso. Sem desperdício. Sem folga.
Achei elegante.
Demorei uns trinta anos para entender que tinha aprendido, sem querer, uma descrição bastante fiel de como a gente vive hoje em dia.
A lógica do Just in Time é bonita no papel. Cada elo da cadeia entrega o que é necessário, na hora certa. Eficiente.
Exceto quando algum elo falha.

Eu sempre pensei no cara que fabrica o parafuso que vai dentro do retrovisor. No dia em que ele tem um problema pessoal, dorme mal, adoece — ou simplesmente não consegue entregar no ritmo combinado. Pronto. A produção da Fiat pára! Toda a cadeia pressupõe que cada elo vai funcionar no momento exato em que for necessário.
Sem margem. Sem estoque. Sem um dia ruim.
Me diz: como você está com o seu estoque interno?
O burnout cresceu 823% no Brasil em quatro anos. Mais de 440 mil trabalhadores afastados por saúde mental. O debate tenta entender o que aconteceu — fala de jornadas longas, de pressão, de hiperconectividade. Tudo isso é real. Mas tem uma camada que aparece pouco na conversa.
A gente não foi apenas pressionado de fora. A gente incorporou a lógica. Byung-Chul Han que o diga. O filósofo coreano passou anos observando as consequências da gente ter saído de uma sociedade que dizia “você não pode” para uma que diz “sim, você pode” — nos fazendo virar o chefe da nossa própria exploração. Sem patrão pra culpar. Só você, que é ao mesmo tempo o trabalhador e o gerente.
A Fiat abriu uma filial dentro de nós.
O nosso relógio interno passou a ser regido pelos grandes relógios do mercado. Meta, prazo, entrega, check. E, de alguma maneira, aos poucos, a gente se tornou o gerente geral dessa filial interna. Quem estabelece as metas? Eu mesmo. A quem devo satisfação? A mim mesmo.
“Eles já são carrascos e vítimas do próprio mecanismo que criaram.”
Raul Seixas cantou isso nos anos 70.
Viramos um Uróboro. Uma cobra que come o próprio rabo — e come achando que está sendo produtiva.
Como sair desse ciclo? A pegadinha está na própria pergunta. A resposta não é sair. Já estamos muito pra fora. Chaplin alertou sobre isso há quase cem anos nos seus Tempos Modernos.
A saída é entrar.
A saída é olhar pra dentro e reconhecer a necessidade de desacelerar o nosso carro interno. Porque é só desacelerando que a gente começa a perceber a paisagem. Começa a identificar o que é necessidade real e o que é ritmo alheio que incorporamos como se fosse próprio.
Hoje de manhã escrevi isso à mão, num caderno, num hotel de bem-estar na Serra da Mantiqueira — onde venho me recalibrar desde 2009. Meu corpo tinha chegado de viagem na véspera, mas a minha consciência só concluiu o download hoje de manhã — quando consegui notar a cor do céu de inverno, as mexeriquinhas na árvore em frente ao chalé, a vista do vale.
Levei um dia inteiro pra chegar de fato.
A gente raramente dá tempo ao tempo.
Põe no post-it.
Momo, de Michael Ende. Escrito nos anos 70, conta a história de uma menina que luta contra os Homens Cinzentos — ladrões de tempo que convencem as pessoas a economizarem cada minuto. No fim, ela vence o Senhor do Tempo sentada numa tartaruga que anda para trás. Ende entendeu algo que a gestão moderna ainda não aprendeu: às vezes a única maneira de vencer o tempo é correr mais devagar do que ele, no sentido oposto. O livro tem cinquenta anos. Parece ter sido escrito hoje.
Não sei como as pessoas da sua equipe lidam com isso. Mas se você, como líder, já reconheceu a filial dentro de si — sabe exatamente que tipo de gerente ela tem. E provavelmente já percebeu que o ambiente ao redor espelha esse ritmo.
É exatamente essa conversa que eu facilito em palestras e workshops para organizações. Se fizer sentido levar esse olhar para o seu time, me manda uma mensagem.
Álvaro Lages | facilitador, palestrante, multi-artista e maestro de ambientes
